Revista norte americana admite contribuir para o preconceito no Oscar

Variety 2016

Bastou sair a lista de indicados ao Oscar, o prêmio máximo do cinema, concedido anualmente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, para começar a polêmica já em janeiro. Não há negros na lista dos indicados ao Oscar de Melhor Ator, Atriz, Ator Coadjuvante, nem Atriz Coadjuvante do ano de 2016. Nenhum entre os 20 nomes indicados. Nem no ano anterior. A revista Variety, a maior publicação sobre cinema dos EUA, assumiu sua parcela de responsabilidade com a capa de sua edição recente, apresentando um Oscar branco e o texto Shame On Us (Vergonha Nossa). Os jornalistas da revista explicaram que a responsabilidade não está apenas nos votantes da Academia, mas na imprensa especializada devido ao destaque desigual dado aos filmes com brancos, negros e demais minorias. Para se ter uma ideia, o site especializado Awards Circuit apresentou uma lista de 40 potenciais indicados em cada categoria, antes do anuncio oficial dos indicados ao Oscar. Ao todo, 160 nomes. A quantidade de negros destacados foi de quinze.

Alguém poderia pensar que os atores negros não fizeram grandes papéis. A lista dos indicados divulgada pela Academia ignorou nomes como Will Smith (Um Homem Entre Gigantes), Michael B. Jordan (Creed – Nascido Para Lutar), Idris Elba e Abraham Attah (Beasts of No Nation/Feras Sem Nação), Samuel L. Jackson (Os Oito Odiados), John Boyega (Star Wars – O Despertar da Força), David Oyelowo (Cinco Noites em Maine), Jason Mitchell e Corey Hawkins (Straight Outta Compton – A História do N.W.A.), RJ Cyler (Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer), Forest Whitaker (Nocaute) e Shameik Moore (Um Deslize Perigoso) nas categorias de Melhor Ator Principal e Coadjuvante. Enquanto papéis femininos como Tessa Thompson (Creed – Nascido Para Lutar), Mya Jeanette Taylor (Tangerine) e Gugu Mbatha-Raw (Um Homem Entre Gigantes) passaram longe das categorias de Melhor Atriz Principal e Coadjuvante. Por outro lado, o ator Idris Elba foi lembrado nas indicações de outros prêmios como o Bafta (o Oscar inglês), o Sindicato de Atores dos Estados Unidos (SAG) e o Globo de Ouro.

Em 2015, os cinéfilos do mundo inteiro reagiram nas redes sociais, com a hashtag #OscarSoWhite (Oscar branco demais, em tradução livre), criticando especialmente o fato do filme Selma – Uma Luta pela Igualdade, sobre a vida do ativista Martin Luther King, ter sido indicado apenas para Melhor Filme e Melhor Canção Original, ignorando as indicações do ator principal, David Oyelowo, e da diretora Ava DuVernay. Esse ano, diante do mesmo problema da ausência de negros, a Internet reagiu com nova Hastag, #OscarsStillSoWhite (#OscarAindaMuitoBranco). O diretor de Faça a Coisa Certa e Malcolm X, Spike Lee anunciou que vai boicotar a festa de Academia. A atriz Jada Pinkett Smith questionou a situação no Twitter: “Os negros são sempre convidados a entregar a estatueta, mas que raramente são reconhecidos pelos seus feitos”. E completou: “Os negros deveriam participar da cerimônia?”. O marido dela, Will Smith (A Procura da Felicidade), que poderia ter sido indicado por Um Homem Entre Gigantes, acompanha a esposa no boicote. Curiosamente, a presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs, é uma mulher negra e o apresentador da cerimônia de 2016 será o ator e comediante negro Chris Rock.

Diante da história do prêmio, a situação é mais crítica. A Academia começou a distribuir os Oscars em 1929. Mas foi preciso dez anos para Hattie McDaniel ser a primeira atriz negra a ser indicada e a vencer, por seu papel no clássico E o Vento Levou (1939). Ela era filha de escravos e, antes de receber a indicação, ela nem tinha permissão para entrar na festa da Academia. O ator Sidney Poitier foi excepcional. O primeiro ator negro indicado em Acorrentados e o primeiro a vencer por Uma Voz nas Sombras. Seus filmes são um símbolo na luta contra o preconceito. Denzel Washington foi o primeiro ator negro a vencer dois Oscars. Como coadjuvante por Tempo de Glória (1989) e principal por Dia de Treinamento (2001). No mesmo ano, Halle Berry foi a primeira atriz negra a vencer como Melhor Atriz por A Última Ceia. Ao todo, 15 atores negros venceram a estatueta dourada em toda a história do Oscar.

O reconhecimento da Academia para outras minorias também não é exemplar. O site Hollywood Reporter apurou que apenas 24% dos indicados este ano são mulheres. O percentual ainda é representativo porque existem categorias específicas de atuação para as mulheres. As demais categorias são dominadas por homens. Na história do Oscar, apenas quatro mulheres já foram indicadas para Melhor Direção e apenas uma venceu. Foi Kathryn Bigelow por Guerra ao Terror (2008). Nenhuma mulher foi indicada ao prêmio de Melhor Fotografia. Latinos também sofrem para chegar no panteão do Oscar. Estrangeiros, também. Nem podemos citar os profissionais transgênero.

A indicação ao Oscar significa que o artista passa a integrar a Academia e votar nos futuros indicados e premiados. Dados do jornal Los Angeles Times, mostram que a Academia é formada por 6 mil membros, entre os quais 94% são brancos e a maioria homens, enquanto os negros e os latinos representam cerca de 2%. Apesar das preocupações e mudanças de regras propostas pela presidente da Academia para estimular a diversidade entre os indicados, todo o cenário apenas reforça a verdade constatada atualmente. A Academia continua dominada por homens brancos. E será muito difícil mudar esse cenário.

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Publicado em 27 de janeiro de 2016, em Cine Express e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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