Lamentável atitude machista de cineastas pernambucanos contra o sucesso de Anna Muylaert

Anna Muylaert

Lamentável é a palavra mais adequada para descrever a polêmica que marcou a exibição do filme Que Horas Ela Volta?, com Regina Casé e Maeve Jenkings, na sala de cinema da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), Cinema do Museu, recém inaugurada, dentro do Museu do Homem do Nordeste, na zona norte do Recife. O incidente ocorreu na sessão de sábado, dia 29 de agosto. Após a exibição do filme, teve início um debate para discutir as temáticas abordadas com segurança e sensibilidade pela diretora Anna Muylaert ao longo em sua obra. Os cineastas pernambucanos Lírio Ferreira e Cláudio Assis foram convidados pelos organizadores do evento para contribuírem com o debate, por serem também amigos, de longa data, da cineasta. Eles trabalharam juntos em outros projetos no passado. O debate serviria para destacar as qualidades do filme que conquistou reconhecimento internacional nos Festivais de Sundance e de Berlim. Além de celebrar o talento e os acertos de Muylaert. Entretanto, o que aconteceu foi uma situação vexatória, desmedida e lamentável. O pior exemplo de machismo, ocorre justamente em um evento que celebra um filme focado em valorizar as mulheres.

Os três diretores chegaram juntos, segurando garrafas de cerveja, em tom de festa. A diretora Muylaert e o curador do cinema, Luiz Joaquim, iniciaram o debate. Mas desde o início foram interrompidos por Lírio Ferreira e Cláudio Assis que aparentavam estarem bêbados. Enquanto Ferreira ficou gritando coisas grosseiras, Cláudio tentou impedir Muylaert de sentar na cadeira do palco e tomou o microfone da diretora. Eles interromperam o público de trocarem ideias no debate. Com o circo armado, as pessoas começaram a deixar o local indignados com a postura machista dos cineastas pernambucanos. Cláudio Assis chegou a chamar Regina Casé de “gorda” e o maquiador do filme de “bichona”. Os dois deram a entender que não aceitavam o sucesso de Muylaert, atrapalharam o evento e tentaram desclassificar o filme. Inveja? Ciúme? Machismo? Todas as alternativas? Resposta: Atitude lamentável.

A jornalista Carol Almeida, do JC, presente no evento constatou a ironia de ver um filme que valoriza o protagonismo feminino, enquanto assiste um debate em que dois homens procuram calar a voz de uma mulher diretora. A notícia teve grande repercussão nas redes sociais e, depois, na imprensa nacional. A diretora Muylaert tentou depois minimizar o ocorrido. “Eles estavam bastante alcoolizados. Agiram de maneira intantil e boba, numa atitude de egolatria comum aos homens. Quando viram uma mulher em evidência, precisaram atrapalhar o momento”. O diretor Kleber Mendonça Filho (O Som Ao Redor), um dos programadores do Cinema do Museu, se revelou indignado: “Desrespeito com Anna, com o filme, com a equipe, com o público e também com o Cinema da Fundação, que trabalhou desde julho pra trazê-la aqui.”

O Cinema da Fundação Joaquim Nabuco lamentou o ocorrido em nota de desculpas, através das redes sociais, pelo comportamento deplorável dos cineastas pernambucanos. Numa resposta louvável, a Fundaj anunciou que “não permitirá qualquer evento envolvendo os dois realizadores, e suas respectivas produções, em qualquer espaço da Fundaj. A punição tem validade por um ano”. Ferreira e Assis enviaram pedido de desculpas ao público e a Muylaert, mas o estrago já estava feito. Curiosamente, Assis pretende realizar seu próximo filme, a partir do roteiro de Muylaert, chamado Piedade.

Anna Muylaert, diretora e roteirista paulistana, realizou filmes como Durval Discos  (02), É Proibido Fumar (09) e Chamada a Cobrar (12), antes de seu sucesso, Que Horas Ela Volta? (15), cotado para ser o filme indicado pelo Brasil a concorrer ao Oscar 2016. Cláudio Assis é um diretor pernambucano polêmico, responsável por obras como Amarelo Manga (02), Baixio das Bestas (06) e Febre do Rato (11). Seu filme mais recente, Big Jato (15), pode ser lançado ainda nas próximas semanas. Lírio Ferreira é o diretor pernambucano de Baile Perfumado (97), Arido Movie (05) e Sangue Azul (15), premiado no Festival do Rio 2015. Vamos torcer para que atitudes lamentáveis como essa não ocorram mais.

Leia mais sobre o sucesso do filme Que Horas Ela Volta? aqui e aqui.

Publicado em 2 de setembro de 2015, em Cine Express e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

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