Mulheres marcantes nos quadrinhos – Segunda Parte

 

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Pelo mundo e também no Brasil, conhecemos exemplos de personagens femininas marcantes dos quadrinhos que ajudaram a quebrar paradigmas, conquistaram leitores no mundo inteiro, acenderam a imaginação masculina ou cativaram o público infantil por gerações. Muitas delas fizeram tanto sucesso que também alcançaram as telas de cinema.

Hit Girl – Mindy McCready é uma garota na faixa dos dez anos que gosta de ir ao parque, tomar sorvete, passear no shopping e enfrentar criminosos em meio a ataques furiosos, precisos e violentos, vestida como Hit Girl. Naturalmente, isso não é o que se pode esperar de uma jovem de dez anos. A total quebra de paradigmas foi a marca da revista em quadrinhos Kick Ass, escrita por Mark Millar e desenhada por John Romita Jr. O protagonista, também adolescente, Dave Lizewski, resolve ser super herói, mesmo sem super poderes ou qualquer treinamento, num contexto de vida real. Claro que seus primeiros confrontos, ele leva grandes surras e quase morre, mas ele é perseverante e conhece outras pessoas comuns com o mesmo objetivo. É quando surge a jovem Hit Girl, ao lado de seu pai, Damon McCready, também conhecido como Big Daddy. O pai treinou a jovem e inocente garota, desde muito cedo, para ser uma combatente do crime, uma exímia lutadora e assassina. Quando ela aparece, rouba a cena. Nos quadrinhos ou nas adaptações para as telas, Hit Girl consegue se impor e ofuscar os demais.

No cinema, a personagem conseguiu elevar ao estrelato, a jovem atriz Chloë Grace Moretz, com a impressionante atuação de uma garota que, na vida real, tinha onze anos. Porém, o filme chamou a atenção dos conservadores e críticos ao acusar a trama de glorificar a violência de forma gratuita. A Associação pela Família na Austrália declarou que o filme contém linguagem ofensiva e transmite valores inadequados. Para muitos críticos, o filme explora a violência com menores e promove a extrema erotização precoce na adolescência. A garota representa um extremo do empoderamento das mulheres, retratado de forma mais sutil em outras personagens dos quadrinhos. Por outro lado, a maneira como a personagem é retratada e seu sucesso junto ao público mostrou para as editoras de quadrinhos, a necessidade de haver mais personagens femininas fortes, independentes, protagonistas. Ponto para o idealizador Mark Millar. Hit Girl teve sua primeira aparição na revista Kick Ass nº 3, de julho de 2008. Desde então, não parou mais de brilhar. Ela ganhou até uma revista solo. Apesar de parecer uma publicação independente, pela abordagem inusitada como desenvolve os personagens, a série de revistas Kick Ass e Hit Girl foi publicada pela grande Marvel Comics, no selo Icon, criado para os artistas desenvolverem seus projetos pessoais.

Barbarella – Os anos 70 foram marcados pela liberação dos costumes, pelos excessos e pela psicodelia. Entretanto, algumas obras anteciparam esse cenário, como os quadrinhos de ficção científica francês, Barbarella, criado por Jean-Claude Forest, numa série publicada entre 1962 a 1964. Quando a série foi reunida e lançada num único livro provocou escândalo na sociedade pela trama erotizada e pelo uso de drogas. O livro foi considerado a primeira publicação de quadrinhos adulto e chegou a ter suas vendas proibidas. Os franceses não conheceram os quadrinhos brasileiros de Carlos Zéfiro dos anos 50. O sucesso de Barbarella abriu caminho para outros quadrinhos adultos como Valentina (1965), de Guido Crepax, e Vampirella (1969) de Forrest J Ackerman e Trina Robbins.

Barbarella é uma exploradora espacial que visita diversos planetas, realiza contatos mais do que imediatos com seres alienígenas, usa da sexualidade para vencer os inimigos e persegue o vilão, Dr. Durand Durand, que ameaça a paz do universo. Atente para o nome da banda inglesa de sucesso nos anos 80, Duran Duran. O grande vilão inventou como arma, o Raio Positrônico, e uma máquina, o Orgasmatron, capaz de provocar sucessivos orgasmos até o ponto de matar a vítima de prazer extremo. O fenômeno de vendas fez com que o livro em quadrinhos fosse traduzido em doze idiomas e chamou a atenção do produtor de cinema italiano Dino De Laurentiis. Ele convocou o diretor francês Roger Vadin que escalou a própria esposa para o papel principal, Jane Fonda. Ela foi convidada após Sophia Loren e Brigitte Bardot rejeitarem o papel. O filme Barbarella foi um grande fracasso de bilheteria, sendo atacado pela crítica da época por seu roteiro confuso, diálogos sem noção e atuações sofríveis, apesar de Jane Fonda se tornar um símbolo sexual pelo papel de Barbarella. O tempo foi benéfico para o filme que tornou-se cult. Aos olhos de hoje, as críticas ao filme são mais favoráveis.

Re Bordosa – Filha do movimento de contra cultura, do movimento hippie, da luta contra a censura e a ditadura brasileira que marcou os anos 70 e 80, Re Bordosa foi criada por Arnaldo Angeli Filho, mais conhecido com Angeli, um dos mais renomados cartunistas nacionais, colaborador de revistas como Senhor e o jornal Folha de São Paulo. Angeli reuniu-se com diversos artistas irreverentes para lançar a revista em quadrinhos, Chiclete com Banana, em 1983, nos moldes de uma revista anárquica estrangeira, a Mad. Nas páginas da revista Chiclete, nasceu personagens como Os Skrotinhos, Geraldão e Piratas do Tietê. Rê Bordosa estava lá, desde o início, como uma personagem inesquecível, justamente por ser a antítese de uma mulher virtuosa. A personagem é uma mulher adulta, decadente, politicamente incorreta, alcoólatra, ninfomaníaca, desbocada. Diz, faz e vive um absurdo atrás do outro. Um extremo do mal comportamento e do mal exemplo. Do absurdo, nasce o humor anárquico, libertário, sem preconceitos.

Rê Bordosa conquistou tanta notoriedade que ganhou papel de destaque no divertido longa metragem de animação Wood & Stock – Sexo, Orégano e Rock’n’Roll (2006), cercado de personagens icônicos também criados por Angeli, focado em Wood & Stock. O filme reflete a mentalidade da juventude nos anos 70, em contraste com a realidade da vida que eles enfrentam, décadas depois. Situações inusitadas, encontros inesperados, piração total e psicodelia, regado a muito orégano. Destaque para a banda de rock cujo vocalista é um porco punk e, claro, Rê Bordosa, numa participação menor, porém não menos importante. A personagem foi dublada pela cantora Rita Lee, numa participação especialíssima. A sessão de terapia de Rê Bordosa, no divã do psiquiatra, é uma sequência hilária.

Druuna – Em se tratando de erotismo nos  quadrinhos, nunca houve uma mulher como Druuna. Criada pelo artista italiano, Paolo Eleuteri Serpieri, ela teve sua primeira aparição na história Morbus Gravis (1985). A personagem vive num mundo pós apocalíptico, no limiar entre o sonho e a realidade, entre o belo e o grotesco, a sexualidade e a violência, a inocência e a malícia, o tecnológico e o orgânico. Diz a lenda que o artista visitou o Brasil nos anos 80 e, inspirado numa baiana, desenhou sua bela personagem que exala sexualidade pelos poros. Druuna corresponde ao arquétipo da mulher sexy, voluptuosa, de corpo escultural, pele morena e traços indígenas. A caneta do arquiteto Serpieri é precisa em criar ambientes tirados de pesadelos. Cenários sombrios, becos escuros e sujos, criaturas mutantes, mal encaradas, perigosas, marginais, aberrações genéticas, vítimas de uma doença mortal. Em total contraste, vemos o corpo de Druuna, vagando pelas vielas, quase sempre semi-nua. Ela é determinada e avança sem descanso nesse cenário ameaçador, a mercê do desejo dos seres ao seu redor. E se entrega aos prazeres em troca de um remédio para tentar salvar o seu namorado. Muitas vezes se submete aos desejos mais sombrios, pervertidos e covardes de desconhecidos. Até gosta. Mas sua atitude passiva esconde intenções e objetivos específicos. O erotismo presente na história é, por vezes, explicito. Muito além dos tons de cinza que conheceu recente sucesso na literatura e no cinema.

Como uma heroína tirada das páginas dos livros do Marquês de Sade, ela sai de uma situação erótica para encontrar outra, e outra, e outra. Ela não resiste. Se entrega. Vivência abusos e violência, sempre com a esperança de superar, de alcançar seu destino, de reencontrar o seu amado, de curá-lo. O mundo caótico onde vive não compartilha da mesma esperança. A maioria dos seres são escravos do desejo ou condenados pela doença. Apesar da feminilidade da personagem, as histórias de Druuna são fruto e alimento da perversão e dos desejos masculinos. Do sexo livre, com base no instinto. De apenas encontrar, desejar e se relacionar, como o roteiro de um filme pornográfico com cenário de ficção científica. No fim das contas, o roteirista não está preocupado de explicar a história, mas de criar situações extremamente eróticas. A trama é uma mera desculpa para as situações retratadas. Naturalmente, as revistas de Druuna são um grande sucesso de vendas em qualquer pais onde são publicadas. Muitas mulheres podem rejeitar a personagem pelo aspecto de enxergarem nela, a mulher objeto sexual. Um brinquedo para o prazer dos personagens e leitores masculinos. Mas as revistas hoje são objetos de estudos acadêmicos psicanalíticos tendo em vista que as tramas criadas pelo artista italiano interage com as fantasias, medos, desejos e ansiedades incutidos no subconsciente. A personagem se enquadra no cenário imaginado pela corrente do ecofeminismo que prevê o cenário catastrófico como futuro possível e uma sociedade opressora em que a elite subjuga as classes desfavorecidas.

Mônica – Em meio a personagens femininas inseridas em contextos adultos, a Mônica chega como representante brasileira de quadrinhos infantis. Com histórias puras, ingênuas, de humor suave e caráter educativo, orientador. Criada por Mauricio de Sousa em 1963 nas tiras de jornais de Cebolinha, publicadas pelo jornal Folha de São Paulo. Originalmente como coadjuvante, Mônica logo ganhou destaque, conquistou seu espaço e ganhou uma revista própria em 1970, na época, pela Editora Abril. A revista também é considerada a primeira publicação infantil colorida no Brasil. O universo de personagens foi construído, aos poucos, hoje conhecido como a Turma da Mônica ou Turma do Limoeiro. As revistas da turma também foram publicadas pela Editora Globo e atualmente sai pelo grupo italiano Panini Comics. Mas a produção continua sendo do Estúdio Maurício de Souza. O autor revelou mais tarde que se inspirou na própria filha, também Mônica, para criar a personagem.

Para quem não sabe, seu nome completo é Mônica Moreira de Sousa. A famosa personagem tem “eternos” sete anos, vive no bairro fictício do Limoeiro, cenário onde ocorre as histórias. Ela é perseguida como alvo de gozação por seus colegas de bairro, o Cebolinha, aquele que troca os “erres” pelos “eles” e o inseparável companheiro Cascão, que foge de água, como um rato foge do gato. Ambos ainda inventam mirabolantes planos “infalíveis” para derrotar a Mônica por não aceitar que ela é a mais forte do grupo e até do bairro, num claro caso, hoje classificado como bullying. A Mônica perde a paciência. Não suporta ser chamada de baixinha, gordinha, dentuça (não digam a ela que escrevi isso por aqui). Ela gira seu coelhinho azul de pelúcia, o Sansão. Símbolo de sua força. E responde agressão verbal com agressão física. Reage as provocações. Mas, no fim das contas, não deixa de ser a garota dócil, gentil e delicada. Mantém os laços de amizade com todos, especialmente sua amiga comilona, Magali. As revistas se multiplicaram com muitos personagens e deram espaço a Turma da Mônica Jovem que absorve a linguagem de Mangá, quadrinhos japoneses, e apresenta uma abordagem adolescente. O sucesso não era tão esperado, mas  a Turma da Mônica Jovem bateu o recorde como uma das revistas em quadrinhos mais vendidas no século 21. Ao todo, as revistas da turma dominam 86% do mercado nacional de quadrinhos.

A Mônica e sua turma transcenderam as revistas em quadrinhos e alcançaram outras mídias com jogos e animações para televisão e  peças de teatro com sucesso, sendo exibidas atualmente no Cartoon Network , Tooncast e na Globo. A estréia na televisão foi em 1979 com Mônica e Cebolinha – No Mundo de Romeu e Julieta, filmagem de uma peça de teatro com atores. No cinema, suas aventuras atravessam décadas. Em 1982, a estréia da no cinema foi com As Aventuras da Turma da Mônica. Destaque para a animação lançada no ano seguinte, A Princesa e o Robô, mistura de Guerra nas Estrelas com Romeu e Julieta, um grande sucesso de bilheteria. Após diversos longas, para baratear os custos e agilizar a produção, os filmes lançados com a Turma da Mônica passaram a reunir diversas tramas curtas. A série de filmes Cinegibi iniciada em 2004 tornou-se um padrão também com bons resultados de público, chegando até a quinta continuação.  Em 2007, a personagem recebeu o título de embaixadora da UNICEF por sua contribuição de quase 50 anos na transmissão de “valores como a amizade, a importância da educação, da convivência familiar e comunitária.”. A Turma da Mônica também foi tema do Parque da Mônica, hoje fechado, mas com promessa de retornar as atividades. São cerca de três mil produtos licenciados da turminha que movimenta cerca de US$ 2 bilhões e empregam 30 mil pessoas direta e indiretamente. Tem seu próprio canal no You Tube, a TV Mônica. Produto de exportação, a Mônica também viaja pelo mundo em revistas como Monica’s Gang (EUA), La Banda di Monica (Itália), Monika dan Kawan Kawan (Indonésia) e Mónica y su Pandilla (Espanha). As publicações da Turma estão presentes em mais de 120 países. O Governo Chinês procurou Maurício de Souza para lançar a Turma da Mônica como material didático nas escolas chinesas. Na proposta, as revistas são publicadas em versão digital, via Internet para alcançar 180 milhões de crianças. Mônica não é He Man, mas tem a força…

Conheça ainda sobre outras personagens marcantes na terceira parte do especial. Leia aqui.

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Publicado em 7 de março de 2015, em QG HQ e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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